Aurê Aguiar

BLOG

Mais amor e matemática, por favor

A menina que não recebe incentivo para apreciar a matemática hoje, será a mesma que não conseguirá gerenciar as próprias finanças amanhã. Mas isso é a ponta do iceberg da exclusão. Em um cenário onde humanos e robôs operam, cada vez mais intimamente, na ordenação lógica do mundo, nós, mulheres precisamos fazer as pazes com os números e, quem sabe, como diz Caetano Veloso, em O Quereres, encontrar a mais justa adequação. Tudo métrica e rima e nunca a dor. Ensinar meninas e mulheres a resgatar a poesia da matemática pelo amor, a principal via da aprendizagem, pode ser um caminho para a reparação histórica da violência financeira que grande parte das mulheres sofre, embora muitas nem saibam que esse abuso é crime, com punição prevista em lei.

Amor e matemática conectam-se inesperadamente pelo senso comum, mas o que move o mundo é o senso incomum. É a capacidade de não restringir-se ao óbvio, de ousar olhar mais uma vez, ouvir outras tantas, mudar o posicionamento, por saber que existem ângulos de visão diferentes, determinantes para a leitura do outro e de si como elementos únicos e capazes de impactar o todo.  

A curiosidade em torno de princípios universais e a tentativa de compreendê-los movem a humanidade. Amor e matemática são linguagens globais de ampliação da consciência, e a fluência nessas línguas está mudando rapidamente de desejável para obrigatória. Ampliar o conhecimento dos padrões matemáticos de nosso mundo proporciona uma compreensão mais profunda e uma apreciação mais rica da arte, por exemplo. A música comporta proporções matemáticas na harmonia, melodia e ritmo. Intervalos consonantes e dissonantes explicam muito mais que frequências sonoras. Os pés poéticos nos dão asas para devanear.

Esse mesmo conhecimento matemático também ampliará as habilidades analíticas, o senso crítico e a confiança necessária para que nós tomemos decisões fundamentadas sobre finanças pessoais, negociações e gestão de patrimônio. O viés do status quo busca desencorajar ou excluir mulheres desse aprendizado. Estereótipos de gênero arraigados na cultura não existem por acaso e obedecem a padrões que ampliam desigualdades estruturais. Podemos contemplar as exceções, mas antes é preciso entender os modelos.  

O astrônomo Galileu Galilei disse que as leis da natureza estão escritas na linguagem da matemática. Esse dialeto do universo aponta para equilíbrio, proporções e simetrias inspiradoras. Humanos conhecedores da construção de robôs podem aprender a se construir ou reformar interiormente, olhando para fora. A vida desenha curvas e o universo está em expansão. Estamos nos reorganizando, sempre. O apego aos modelos ultrapassados e a resistência aos novos arranjos atrasam o movimento natural do mundo. Mulheres que se propõem ser agentes de fluidez no universo trazem para si o desafio de interferir na conta errada, feita pela cultura patriarcal.

É preciso ampliar a capacidade de entender conceitos abstratos, cada vez mais complexos, para evitar paradigmas reducionistas que conduzem a um falso conforto de simplificação. A simplicidade é uma equação que apura a vida, não uma frequência fácil de sintonizar. Exige uma complexa rede de agentes transmissores para ampliar sua propagação.

Nós, mulheres, precisamos aprender a somar antes de exponenciar. Isso é potência feminina. A escritora Conceição Evaristo traduz assim no poema.

Eu-Mulher:

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.

Compartilhar post

Search

Posts mais recentes

Categorias

.

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência. Ao continuar a navegação, você concorda com tal monitoramento.